Evolução tecnológica na logística exige reflexões políticas e econômicas

Evolução tecnológica na logística exige reflexões políticas e econômicas

Paulo Roberto Guedes

Uma dos pontos que mais me chamaram a atenção no Fórum Internacional de Supply Chain, promovido pelo Instituto de Logística (ILOS), no mês de setembro último, foi a constatação de que, mesmo em assuntos extremamente técnicos, como são os casos da logística e do supply-chain, as discussões sobre política e economia também estão se fazendo presentes.

E não de forma periférica ou superficial, como costumeiramente acontece, mas de uma forma direta, posto que, mesmo que muitos não queiram aceitar, as atividades do setor e a forma como se dá sua evolução, criam impactos importantes, direta e indiretamente, na sociedade, na economia e na política de uma sociedade. Qualquer que seja ela.

Foi o que se constatou na palestra do Professor e Phd Dale Rogers, da Universidade do Arizona (EUA), ao falar sobre a “Evolução da Transformação Digital do Supply Chain”. Depois de comentar sobre os impactos transformadores da tecnologia, do “machine learning”, da “artificial intelligence” ou da “cognitive computing”, o professor discorreu sobre suas experiências profissionais, principalmente nos países e empresas que adotaram, de forma mais intensa, o avanço tecnológico no campo da logística, inexorável e desejável por todos. Objetivamente, o professor Dale comentou sobre um fato incontestável: proporcionalmente, a queda do número de empregos menos qualificados, já há algum tempo, é significativamente maior do que o aumento dos empregos de maior qualificação. O avanço tecnológico, diferentemente de outras épocas, tem contribuido para menor geração de empregos. Tarefas mecânicas, rotineiras ou que, via avanço tecnológico, estão sendo substituídas pelas “maquinas”, expulsam do mercado de trabalho, inicial e inevitavelmente, a mão-de-obra menos qualificada.

Guardadas as devidas proporções, em processo idêntico àquele ocorrido nos Estados Unidos, ainda segundo Dale, é o que vem ocorrendo no Brasil, nestes 10 ou 15 últimos anos.

É compreensível que a busca de melhorias contínuas no desenvolvimento de processos automáticos e autônomos, de coleta, inserção e, principalmente, de análise de dados em quantidades cada vez maiores, bem como a computação cognitiva e a inteligência artificial, exijam aperfeiçoamento, aprendizado e capacitação constantes, priviligiando, consequente e claramente, as pessoas melhores formadas que, em um País como o Brasil, geralmente e com as exceções de sempre, pertencem às classes mais ricas. E o professor Dale, ao mencionar esse tipo de “desemprego estrutural”, atreveu-se a comentar, precisa, correta e devidamente, os impactos negativos, na política, na economia e na sociedade, que essa evolução tecnológica tem gerado. E com possibilidades de aumentar, caso não se compreenda esse fenômeno de forma abrangente e correta. Dale, inclusive, citou o economista francês Thomas Piketty, que há 5 anos atrás escreveu o livro “O Capital no Século XXI”.

No livro Piketty demonstra com clareza e números reais (ele consolidou números e informações coletadas em vinte países dos últimos duzentos anos), que “o crescimento econômico e a difusão do conhecimento ao longo do século XX impediram que se concretizasse o cenário apocalíptico preconizado por Karl Marx, mas, ao contrário do que o otimismo dominante após a Segunda Guerra Mundial costuma sugerir, a estrutura básica do capital e da desigualdade permaneceu relativamente inalterada”, traduzindo-se “numa concentração cada vez maior da riqueza, um círculo vicioso da desigualdade que, a um nível extremo, pode levar a um descontetamento geral e até ameçar os valores democráticos”. Piketty, entre outras, também concluiu que “a evolução dinâmica de uma economia de mercado e de propriedade privada, deixada à sua própria sorte, contém forças de convergência importantes, ligadas sobretudo à difusão do conhecimento e das qualificações, mas também forças de divergências vigorosas e potencialmente ameaçadoras para nossas sociedades democráticas e para os valores de justiça social sobre os quais elas se fundam” (grifos meus).

Isto é bem percebido no Brasil atual, que tem altíssimos níveis de desemprego e de “desalentados”, fruto de dois fatores principais que agem ao mesmo tempo: a evolução tecnológica, que gera grandes transformações no setor produtivo (“desemprego estrutural”), e o baixo crescimento econômico, resultado de uma crise que se arrasta há mais de 4 anos.

Lamentavelmente ainda está para ser desenvolvido, de forma muito mais efetiva, um crescimento econômico mais inclusivo, pois mesmo com toda a evolução tecnológica e científica atual, o crescimento da economia tem deixado “de fora”, um número cada vez maior de pessoas. Segundo a Diretora-Geral do FMI, Christine Lagarde, “analisados as economias mais avançadas, constatou-se uma clara tendência, desde 1990 e até agora, de aumento da desigualdade e se olharmos para as economias emergentes e em desenvolvimento, o quadro é mais complexo”.

Queiramos ou não, a discussão sobre política e economia – e já era tempo – também chegou na Logística e no Supply-Chain.

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