Estamos todos na mesma tempestade, mas não no mesmo barco

Estamos todos na mesma tempestade, mas não no mesmo barco

Paulo Roberto Guedes – 06/2020

 

Na última reunião do Fórum Econômico Mundial, em sua 50.ª edição, realizado no início deste ano, e portanto, antes ainda do reconhecimento de que o coronavírus seria uma pandemia com impactos negativos intensos e pouco conhecidos, os maiores riscos do planeta, apontados através de pesquisa junto a mais de 800 líderes mundiais (Relatório de Riscos Globais), já eram identificados como capazes de comprometer a estabilidade e a governabilidade mundiais em curto espaço de tempo. Os riscos mais citados: a) desconfiança sobre o multilateralismo (aumento do nacionalismo), b) segurança geopolítica, c) expectativa de baixo crescimento econômico, d) guerras comerciais e tarifárias, e) polarização política, e f) impactos (ainda desconhecidos em sua totalidade) na sociedade, oriundos das novas tecnologias e do envelhecimento populacional.

Também ficou claro naquele evento, que os organismos internacionais, tais como ONU, FMI, OMC ou Banco Mundial, em face do exacerbado nacionalismo vigente, terão muito mais dificuldades para colaborar em qualquer processo que vise a recuperação da economia mundial.

 

Mas dois problemas foram considerados como os mais urgentes, merecendo portanto, atenção especial: a mudança climática e o aumento da desigualdade (é possível convivência harmônica e pacífica, enquanto 2.153 bilionários tiverem mais patrimônio do que 4,6 bilhões de pessoas?).

Especificamente com relação ao meio ambiente, ainda é possível acreditar na reversão da situação atual, desde que haja um amplo e global processo de cooperação entre todos os países, principalmente aqueles mais “poluidores”. E vale lembrar, pelo menos, dois aspectos de fundamental importância. O primeiro é o fato de que a necessidade de se proteger o “meio-ambiente” deixou de ser apenas uma preocupação e passou a ser item de negociações políticas e comerciais, pois já não há dúvidas que empresas e países estão cada vez mais dispostos a manter relações comerciais com quem pratica políticas de sustentabilidade, não hesitando em sacar, de suas listas, aqueles que assim não se comportam. As dificuldades de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia é um excelente exemplo (1). E o segundo aspecto, como já comprovado por diversas pesquisas, diz respeito às operações que privilegiam a utilização de energia renovável ou de eficiência energética, que não só contribuem muito mais para a sustentabilidade e a proteção do meio ambiente, se comparados com a utilização do combustíveis fóssil, como também são muito mais geradores de empregos. A McKinsey tem uma pesquisa específica tratando do assunto que mostra que gastos do governo com energia renovável e eficiência energética, em média, criam 3 vezes mais empregos do que os gastos dispendidos com combustíveis fóssil (2).

Mas é preciso atenção, pois dois fatos precisam ser consideradas: 1ª) é o fato de que muitos governantes e executivos em todo o mundo não só ignoram os problemas gerados pela forma predatória com a qual se exploram os recursos naturais (a queimada de florestas é um deles), como também negam os males a que fica exposta toda a humanidade em face da utilização, por exemplo, de energias mais poluentes (como é o caso do combustível fóssil). Infelizmente o Brasil atual transformou-se em exemplo disso: os altos índices de desmatamento (e de queimadas) da Amazônia do ano passado, ignorado pelo presidente da república e que gerou a demissão do diretor do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, segundo dados do próprio Instituto e do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), são muito maiores do aqueles divulgados anteriormente. E pior, uma vez que as informações relativas a 2020, caso nada mude, indicam níveis de desmatamento superiores ao de 2019; e 2ª) agora, diante da gravíssima pandemia instalada, alguns efeitos colaterais poderão ocorrer e não se pode descartar a hipótese de que, na medida em que todo o mundo tem como objetivo a retomada do crescimento econômico, com urgência e a qualquer custo, possa haver um certo ‘desleixo’ no trato da sustentabilidade e um abandono das metas ambientais, inclusive com aumento exagerado na utilização de combustíveis poluidores, outro dos principais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa. Para registro: índices altos de poluição, além de agravar a crise ambiental também cria sérios problemas à saúde das pessoas.

 

Já, com relação à desigualdade social e ao injusto processo de distribuição de renda, as dificuldades são maiores, pois se o avanço tecnológico e a automação continuarão liberando contingentes cada vez maiores da mão-de-obra menos preparada e adaptada ao “novo” (considerando que nos países menos desenvolvidos, cuja maior parte da força de trabalho é assim caracterizada), a crise do coronavírus criará dificuldades adicionais. Os países mais vulneráveis, que sem dúvida aumentarão ainda mais seus já altíssimos déficits orçamentários, terão dificuldades para fazer investimentos e de manter suas políticas sociais, com consequências humanitárias ainda mais desastrosas.

 

Ambos problemas – mudança climática e aumento da desigualdade – possuem, mesmo antes do coronavírus, três características comuns: dificuldade para atender todos os atores envolvidos, falta de decisão política para implementar as soluções já disponíveis e aceitas, e resultados razoavelmente pequenos diante dos desafios existentes (3).

 

Consultados ainda no mês de maio pelo Fórum Econômico Mundial, a respeito dos impactos da pandemia, 350 analistas de riscos, definiram quatro “zonas críticas”: (a) os riscos das transições econômicas e mudanças estruturais; (b) os riscos de paralisia e retrocesso na agenda do desenvolvimento sustentável; (c) os traumas decorrentes das rupturas sociais; e (d) os riscos derivados da adoção abrupta da tecnologia. Na mesma pesquisa, agora junto a 350 executivos seniores das maiores multinacionais do mundo, para que indicassem suas maiores preocupações com relação ao coronavírus e suas consequências próximas, as principais respostas foram: (a) possibilidade de grave recessão econômica, prolongada e que abrangeria todo o mundo; (b) aumento no número de falências de grandes empresas e pequenos e médios negócios (PMEs), seguida por uma onda de consolidação da indústria, que concentraria ainda mais o poder nas mãos de poucas e diminuindo a concorrência; e (c) aumento dos ataques cibernéticos e das fraudes, não só em função da mudança nos padrões do trabalho, mas também pelo provável aumento dos trabalhos em casa (“home office”) e dos próprios desafios impostos à tecnologia (4). Como se vê, aos problemas antigos ainda não solucionados, outros novos, principalmente em face da pandemia, foram adicionados.

 

Portanto, em todo o mundo, a pandemia veio piorar o que já não estava tão bom (5). No caso do Brasil, em particular, o que já estava ruim ficou muito pior, como tentei explanar em meu artigo publicado dia 11 de maio (“Mundo novo, futuro diferente e incerto, e ainda desconhecidos, desafiam governantes e executivos empresariais”), e como reconhece a maioria de especialistas que analisam, de forma independente, a situação econômica do Brasil (6).

 

Por seu turno, o ministro da economia Paulo Guedes, assim que os resultados do primeiro trimestre foram divulgados, queda de 1,5% no PIB quando comparado com o último trimestre do ano anterior, pediu para que não se fizessem críticas ao governo, pois segundo ele “estamos todos no mesmo barco e não podemos deixa-lo afundar” (7) (grifos meus), pois, ainda segundo ele, “a crise gerada pela pandemia, além de ser uma variável externa e fora de nosso controle, afetou negativa e intensamente, todas as variáveis macroeconômicas ao mesmo tempo”.

 

No mês de abril, agora já sob impacto muito maior da pandemia e decorridos 45 dias de isolamento social, os números foram piores. Exceto a produção de alimentos, com crescimento de 3,3%, todos os demais setores industriais brasileiros tiveram queda. Comparado com o mês anterior, a queda da produção industrial foi de 18,8%. No setor de produção de automotores, carrocerias e reboques, a queda foi de 88,5, segundo dados do IBGE! O fato é que todas variáveis macroeconômicas que compõem a formação do produto interno bruto, com exceção do setor agropecuário pelo lado da oferta agregada, e a exportação de bens econômicos e serviços, pelo lado da demanda agregada, vão mal.

Especificamente no que diz respeito aos investimentos, essenciais para que se obtenha uma economia em crescimento, as dificuldades são enormes, pois se o governo, pelos altos déficits fiscais está incapacitado de investir, o setor privado, nacional ou estrangeiro, não se vê à vontade para fazê-lo, seja em face do clima de tensão política existente ou, principalmente, da crença que este governo não saiba como encaminhar soluções para os diversos problemas econômicos existentes, prorrogando ainda mais o processo de retomada econômica (8). Os investimentos no Brasil, já há alguns anos, não consegue superar a casa dos 16% do PIB. Neste primeiro trimestre chegou a 15,8% do PIB. E isto também acontece não só nos investimentos diretos (aqueles diretamente alocados na produção ou no processo produtivo), mas também nos recursos financeiros aplicados no mercado de capitais e de ações. Segundo dados do Banco Central, neste ano, até o dia 22 pp, já saíram via B3 (Bolsa de Valores do Brasil, criada através da fusão da Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo-BM&FBOVESPA e a Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos-CETIP, cerca de R$ 76 bilhões, e através da via financeira, cerca de US$ 33 bilhões. De acordo com o IIF (Instituto Internacional de Finanças), nos primeiros três meses deste ano, a fuga de capital foi quase o dobro do que se ocorreu na crise de 2008.

Não é à toa que as projeções para o ano de 2020 apontam para quedas significativas, variando entre – 5% e -8%. Particularmente, como escrevi em outro artigo (“Os desafios nacionais, durante e pós pandemia, exigirão muita competência e a prática da boa política. Temos?”), a queda poderá superar os 9%. Espero, sinceramente, estar errado.

 

Portanto, parece claro que o governo atual falhou – e continua falhando (exceto quando “empurrado” pela opinião pública ou o Congresso Nacional, como foi o caso de algumas medidas emergenciais, essenciais para ajudar os mais carentes durante e pós-pandemia), pois além de insistir em uma política neoliberal ultrapassada, ele não tem um plano econômico definido, nem tampouco conseguiu desenvolver um conjunto claro e coerente de políticas econômicas e sociais que faça frente à crise vigente.

 

Se o desgoverno Dilma gerou e instalou uma crise econômica sem precedentes, a política econômica deste governo, capitaneada pelo ministro Paulo Guedes, também conhecido como Ministro Nem Nem (nem abertura comercial, nem reforma tributária, nem reforma administrativa, nem privatizações. Nem humanidade, escreveu a jornalista, economista e advogada Elena Landau, em artigo publicado no Estadão dia 05 pp), não tem ajudado muito. Á bem da verdade, as medidas adotadas sempre foram direcionadas para privilegiar o “Deus Mercado”, único caminho para resolver os problemas econômicos, uma vez que, segundo o receituário do posto Ipiranga, o Estado, eternamente perdulário e ineficiente, apenas atrapalha (9). Pois é, só mesmo uma crise deste tamanho para mostrar o quão míope (e antiga) é essa forma de se compreender a ciência econômica.

 

Paralelamente aos problemas políticos criados pela ‘inépcia’ do presidente, este governo, como um todo, além de ‘flertar’ com o autoritarismo (10), tem ficado o mais distante possível dos principais anseios da grande maioria da população brasileira (11). A se acrescentar o fato de que a pandemia e o isolamento social, ao impedirem que as pessoas saíssem de casa para consumir, mesmo considerando o aumento do comércio via internet, fizeram com que as receitas das empresas caíssem de forma significativa, além, é claro, de desorganizar quase todo o setor produtivo. E se por um lado o isolamento social evitou que a pandemia se alastrasse mais rapidamente do que de fato ocorreu, bem como o número de mortos, o fato é que essa providência, por divergências de opiniões entre as diversas esferas de governo, jamais foi implementada da forma correta e integrada, impedindo que se produzissem informações realistas e verdadeiras, necessárias para melhor conhecimento a respeito (12) e prorrogando, sabe-se até lá quando, o fim das medidas mais drásticas de isolamento social e confinamento. Medidas que, por si só, também tem gerado problemas enormes para a saúde da população e a economia.

 

Outro fato é que, mesmo apesar de algumas medidas adotadas pelo governo para atenuar alguns dos impactos negativos da pandemia, o resultado é que o desemprego aumentou (13), assim como o número de desalentados (pessoas com 14 anos ou mais que desistiram de procurar trabalho porque não acreditam encontra-lo) e da força de trabalho potencial que, por diversos motivos, não está ocupada (14). Consequências imediatas: queda substancial da massa de salários (15) e do nível de consumo das famílias (16). Pesquisa recente do iPC Maps (Índice de Potencial de Consumo), dá conta que neste ano de 2020 a conta Consumo das Famílias (principal variável macroeconômica que compõem o lado da Demanda na composição do PIB), em termos reais, ficará próxima daquela obtida em 2010, isto é, 10 anos atrás!

Infelizmente, a expressiva maioria de brasileiros, além de amargar todos os problemas gerados pela crise econômica, política e social que já se arrasta por mais de seis anos, viram, nestes primeiros meses de 2020, as taxas de concentração de renda (17) e de desigualdade (18), aumentarem significativamente. É fato que países como o Brasil, com menos recursos para enfrentar uma crise dessa magnitude (enquanto o governo brasileiro dispensa o equivalente a cerca de 6% do PIB – R$ 416 bilhões – para ajudar os mais necessitados, seja pessoa física ou pessoa jurídica, o EUA gastam 10% do PIB americano – R$ 10 trilhões, isto é, 24 vezes mais! A McKinsey estima que os países do G-20, somente com medidas fiscais, gastarão em média, o equivalente a 11% do PIB de cada um deles, ou seja, três vezes mais do que foi dispendido na crise financeira de 2008/2009), e considerando que há, de fato, como aqui já citado fuga de capitais para serem aplicados em países mais “seguros” e com menos incertezas políticas, as dificuldades brasileiras crescem exponencialmente.

Lamentavelmente este é o País e o governo que temos. Muitos erros foram cometidos no passado e, como dito pelo professor Miguel Sacramento da EAESP/FGV, não exatamente com essas palavras, “escolhas erradas no passado, problemas no presente e no futuro” (19). Sem qualquer plano de governo, desastroso no trato da política, uma vez que tem gerado enormes e desnecessários problemas com os demais poderes constituídos e países com os quais o Brasil tem intensas relações comerciais, inconsequente no trato das políticas de proteção ao meio ambiente e à sustentabilidade (20), desarticulado e pouco à vontade para defender um conjunto de reformas e de políticas públicas essencial para saída da crise (ex.: a reforma da previdência e o auxílio emergencial somente tiveram êxito pela atuação decisiva do legislativo) e totalmente incompetente e sem ousadia para dar continuidade às reformas ditas estruturantes (política, tributária e administrativa, sequer foram elaboradas), agora, diante da pandemia, ressalvadas pouquíssimas e raras atividades de alguns ministérios, este governo não sabe exatamente o que fazer (21).

 

Diferentemente do que disse o ministro da Economia Paulo Guedes, não estamos todos no mesmo barco, mas com certeza estamos no mesmo mar agitado e na mesma tempestade. Como sempre, os barcos menores, mais velhos e antigos, não podendo usufruir das vantagens oriundas das modernas tecnologias, com manutenção comprometida e ainda com tripulações e passageiros despreparados e carentes, terão menos resiliência e deverão sucumbir. Inevitavelmente, como aliás já se vê.

 

Os riscos são reais e iminentes, com possibilidades de se alcançar um desastre ainda maior, posto que é clara a falta de rumo e liderança, não só para o enfrentamento da pandemia, mas para que o Brasil estabeleça um plano no qual consiga voltar à “nova normalidade”, cujo combate ao desemprego e à desigualdade parece ser fundamental. Ah, é sempre bom lembrar, respeitando-se a Constituição e o Estado Democrático de Direito.

 

  • “As preocupações com a preservação do meio ambiente e com a mudança do clima passaram a ter um impacto que vai além das sanções políticas, como no passado. Agora, com a entrada em cena da figura do consumidor e com a inclusão de políticas ambientais nas negociações de acordos comerciais, as consequências são econômicas e comerciais. Atraem restrições às exportações, boicotes e a inclusão de cláusulas específicas de desenvolvimento sustentável nos acordos comerciais, como ocorreu nas negociações do Mercosul com a União Europeia (UE). E Parlamentos europeus já estão votando moções contra o acordo com o Mercosul. O plano de recuperação da UE, depois da covid-19, inclui uma política industrial e uma política ambiental (Green Deal), que preveem punição a empresas que importarem produtos provenientes de áreas de desmatamento florestal”, escreveu o ex-embaixador e presidente do IRICE, Dr. Rubens Barbosa, em artigo no Estadão do último dia 9 (“A Amazônia em tempos de globalização”);

 

  • Artigo da McKinsey, publicado em 27.05.2020 e elaborado por Hauke ​​Engel, Alastair Hamilton, Solveigh Hieronimus e Tomas Nauclér, com David Fine, Dickon Pinner, Matt Rogers, Sophie Bertreau, Peter Cooper e Sebastien Leger, mostra que programas direcionados de baixo carbono poderiam reiniciar o crescimento e a contratação, ao mesmo tempo em que adotariam um “próximo normal” mais ambientalmente sustentável. Indica o estudo, também, que os gastos do governo com energia renovável e eficiência energética têm criado mais empregos do que gastos com combustíveis fóssil. A partir de investimentos equivalentes a US$ 10 milhões, foram calculadas as quantidades de empregos que seriam criados, direta e indiretamente, em três diferentes programas: Com base em tecnologias renováveis (eólica, solar, bioenergia, geotérmica e hidro) = 75 empregos novos; com base na busca da eficiência energética (eficiência energética industrial, rede inteligente e transporte coletivo, por exemplo) = 77 empregos novos; com base em combustível fóssil (petróleo, gás e carvão) = 27 novos empregos.

 

  • Em artigo específico, publicado pelo Estadão dia 22/12/2019 (“Precisamos transferir recursos dos países ricos aos mais pobres”), o jornalista Guilherme Sobota, ao entrevistar o historiador Yuval Noah Harari, escreveu: “A contínua automação vai beneficiar os países líderes em campos como inteligência artificial e robótica, como os EUA e a China. Os piores efeitos se darão em países em desenvolvimento, que dependem de trabalhos manuais baratos – o tipo de trabalho mais fácil de automatizar. Haverá novos postos, mas será preciso outras formas de treinamento e habilidades. Os países ricos têm os recursos necessários para o retreinamento da força de trabalho. Os países em desenvolvimento e mais pobres serão atingidos duas vezes. Primeiro, pelo choque da automação, e depois pelo fato de não terem os recursos para treinar sua força de trabalho. O que eles podem fazer? Novamente, é um campo em que será preciso cooperação global para salvar os elos mais frágeis da corrente”;

 

  • O Fórum Econômico Mundial, em abril deste ano, ouviu 350 executivos seniores das principais multinacionais em todas as regiões do mundo, e em parceria com as consultorias de risco Marsh & McLennan Companies e Zurich Insurance Group, procurou entender que riscos eles viam para o mundo e suas próprias empresas, para os próximos 18 meses, em face da pandemia. Reportagem a respeito foi publicado no site da revista Exame, dia 19/5/2020;

 

  • As projeções do Fórum Econômico Mundial, a respeito da pandemia, publicadas no Estadão ainda dia26 pp. são: “mais 500 milhões de pessoas serão deslocadas para a pobreza; a produção no mundo deverá ter queda acima dos 5% em 2020, o comércio deverá encolher cerca de 25% a 30%, os investimentos estrangeiros cairão entre 30% e 40%, mais de 80% dos estudantes em todo o mundo ficarão fora das escolas e 34% dos adultos poderão sofrer efeitos negativos em sua saúde mental.

 

Projeções do Banco Mundial para 2020: queda da produção mundial entre 5% e 8% (cenário mais pessimista); recessão maior do que a de 1930 para 90% dos 183 países analisados. Para o Brasil, estima-se uma queda de 8% no PIB, quinto maior índice na América Latina; 

 

  • Escreveu a economista Zeina Latif no Estadão dia 30 pp.: “O resultado (do primeiro trimestre) confirma que a economia vinha em um ritmo de quase estagnação, na verdade desde o fim de 2019. Não é correto afirmar que havia um crescimento robusto contratado que foi inviabilizado pela pandemia” (grifos meus). E finaliza: “o ano de 2020 está condenado. Todo cuidado é pouco para não comprometer o futuro”.

 

Elena Landau, economista e advogada, em artigo publicado no Estadão do último dia 5 (“O joelho Juvenal”) escreveu: “O show dos liberais de pau oco não passou despercebido. Guedes revelou o que pensa de empresas estatais e privatização. Se não puder servir a meus propósitos políticos, tem de vender essa droga logo, disse ele sobre Banco do Brasil. Se não me serve, vende. Nenhum liberal advoga em favor da desestatização em causa própria. Deve ser por isso que não se viu nenhuma reação sua à entrega do Banco do Nordeste ao Centrão. Foi, enfim, privatizado por Valdemar da Costa Neto”. Continua Elena: “Para liberais do Bolsonaro, competição só é boa no terreno alheio. Esse governo desmoraliza a desestatização. Não querem nem sabem fazer. E quando a defendem, é pelo motivo errado”. Finaliza Elena: “É a eterna cantilena dos golpistas incompetentes; sempre precisam de mais tempo e liberdade para implantar seu projeto. A culpa é sempre dos outros” (grifos meus).

 

  • Escreveu Elena Landau em artigo aqui já citado: “Após a divulgação da queda do PIB no 1.º trimestre, Guedes pediu solidariedade e cooperação, palavras que soam falsas em sua boca. Pede a união da sociedade, não para obedecer ao que recomendam médicos e cientistas, mas para tentar salvar sua biografia, já marcada por promessas e devaneios não cumpridos. Mas podemos ficar tranquilos, porque a recuperação será em V, ainda que um V meio torto, como disse o ministro”.

 

  • Economistas que participaram de seminário no IBRE/FGV, de forma unânime, destacaram a incerteza sobre a retomada, lembrando que o crescimento já era fraco antes. Afinal, o desempenho de janeiro e fevereiro não conseguiu impedir que os 15 últimos dias de março derrubassem o primeiro trimestre. A economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, disse que o “Brasil vai ter de crescer pelo investimento, porque pelo consumo vai ser mais difícil ainda, com o crédito restrito e aumento do desemprego”;

 

  • “Sociedades baseadas na responsabilidade social não ‘deixam como está para ver como é que fica’” e “Mais uma vez: a ciência econômica é uma ciência social”, foram meus artigos publicados dias 21/03 e 01/04, respectivamente, nos quais trato sobre a visão incorreta do ministro Paulo Guedes ao tratar os problemas da economia brasileira;

 

  • O economista e ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1998, o indiano Amartya Kumar Sem, defendia que “a liberdade não tem apenas a ver com os direitos teóricos, mas significa ter acesso e oportunidade às coisas a que damos importância, como por exemplo o ‘simples’ ato de escolha. Segundo Amartya, “a expansão e aumento da liberdade é essencial ao desenvolvimento, isto é, o desenvolvimento não deve ser apenas medido através da economia (grifos meus).

 

A vertigem da liberdade está em perceber que não há liberdade com injustiça social. O que fazer com isso, como repensar o conceito de liberalismo nesses termos será tarefa para a próxima década, e uma tarefa a ser cumprida em meio às transformações que já sabemos que nos esperam”, escreveu Monica De Bolle em artigo aqui já citado;

 

  • “Não é possível acreditar que em um País no qual os índices de concentração de renda e de desigualdade só aumentaram, o desequilíbrio fiscal e a consequente destruição da capacidade de investimentos do governo se deu por conta dos mais pobres e desempregados. Ou por causa dos benefícios sociais existentes. Está na hora de trocar de receita, pois a quase totalidade da população brasileira não aguenta mais”, escrevi dia 25.10.19, ao publicar artigo com o título “Quem é o responsável pela realização do bem-estar comum?”, cujo objetivo era mostrar que somente ao Estado cabe o papel de realizar, de forma indiscriminada, o bem comum;

 

Monica De Bolle, artigo publicado no Estadão de 29/12/19: “O fiscalismo estreito, o Estado mínimo, boa parte da agenda de reformas econômicas estão em rota de colisão com a desigualdade. Não reconhecer isso é não entender nada do que ocorreu nos últimos dez anos. Os anos 2010 viram renascer, além disso, a preocupação da economia com a desigualdade e as suas diversas ramificações e inter-relações com o campo das ciências sociais. Como medir a desigualdade? Por que, ante todo o progresso alcançado, ela ressurgiu, sobretudo nos países avançados? O que fazer para combatê-la? A ansiedade derivada dessas perguntas tem sido fonte de grandes avanços na discussão do tema tanto entre acadêmicos quanto no público geral. Já não é mais possível tratar de política econômica sem olhar o tema da desigualdade. Já não é mais possível separar a política da justiça social (grifos meus).

 

 

 

  • Como escreveu o Estadão: “As idas e vindas em relação a como lidar com a covid-19, com disputas entre Executivo e governos estaduais, impediu uma quarentena mais robusta”. E conclui: “Essas indefinições, mais do que qualquer outra coisa, cobrarão um preço adicional para o PIB que respingará no segundo semestre. Enquanto Europa e EUA discutem a saída organizada agora, o Brasil vê o pico da doença em julho e uma volta muito lenta da atividade a partir daí. Por termos sido lenientes com a crise, o impacto econômico será mais difícil de ser contornado”;

 

  • Apenas no acumulado de março e abril, foram fechados 1,1 milhão de empregos formais. Quando se considera também o trabalho informal, 5 milhões já ficaram sem trabalho até abril. Para Bráulio Borges, economista da LCA Consultores, comentou: “Pessoas já desempregadas há muito tempo ficarão desempregadas por ainda mais tempo, levando a economia a perder capital humano. Se as políticas de apoio não forem bem desenhadas, poderá haver destruição de capital”;

 

  • De acordo com o PNDAc de 30/04/2020, o total de desempregados, desalentados e da força de trabalho potencial não ocupada, que no final de 2019 eram 25,357 milhões de pessoas, cerca de 23,93% do total da Força de Trabalho (pessoas com 14 anos ou mais disponíveis para o trabalho), no final de abril de 2020 esse total passou para 27,603 milhões, cerca de 27,04%. O aumento em apenas quatro meses, foi de 8,9%! Foram 236 mil à mais de desocupados, 1.745,2 mil de força de trabalho sem ocupação e 265,2 mil de desalentados. Resumo: mais 2,3 milhões de pessoas fora do trabalho;

 

Segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério da Economia), no mês de março, o balanço final (contratações e demissões) de empregos formais foi negativo em 240.702. Em abril esse número negativo foi ainda maior (- 860.503). Os setores que mais perderam: – 10,5% no segmento de alojamento e alimentação, – 7,1% no setor de artes, cultura, esporte e recreação. A média Brasil foi – 2,8%. Dois segmentos tiveram resultados positivos: Educação, com 0,3% e Administração Pública, defesa e seguridade social, + 0,4%. Os dados foram extraídos do jornal Nexo, edição do último dia 12;

Dados elaborados pelo economista Marcos Hecksher, do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicos Aplicadas), pela primeira vez no Brasil, na segunda quinzena de março e durante todo o mês de abril deste ano, a população brasileira com idade de trabalhar, teve mais da metade sem trabalho! Em março, segunda quinzena, 51,2% dessa população estava desocupada e em abril o percentual alcançou 51,5%;

  • A massa salarial real de todos os trabalhos das pessoas ocupadas, habitualmente recebidas por mês, no trimestre fevereiro/março/abril de 2020, foi de R$ 211,6 bilhões, cerca de 3,33% menor do que o recebido no trimestre imediatamente anterior (novembro/dezembro/janeiro) e 0,8% inferior ao recebido no mesmo trimestre do ano anterior. Os dados são do PNADc de Maio de 2020;

 

  • No primeiro trimestre de 2020, o valor que corresponde ao Consumo Agregado das Famílias (conceito macroeconômico), segundo dados do IBGE, ficou 2% abaixo do trimestre anterior e 0,72% abaixo do mesmo trimestre do ano de 2019;

 

  • Dados elaborados pelo PNAD/IBGE indicam que na média, quem está no topo da pirâmide por faixa de renda (R$ 9.706,00 mensais), recebe 36 vezes mais do que aqueles que estão na última faixa (R$ 267,00 mensais). Enquanto isso, o 1% com maior rendimento mensal (R$ 28.659,00) ganha, em média, 180 vezes o que ganham aqueles que estão nos 5% de menor renda (R$ 160,00 por mês);

 

  • Não há quaisquer dúvidas quanto ao fato de que a pandemia afeta, negativamente, muito mais as camadas mais pobres das populações em todos os países. Melhores para aquelas que vivem em países menos vulneráveis, mais organizados, que trataram a pandemia com responsabilidade e que possuem, além de melhores salários, uma rede social significativa. Pior para quem vive em países que não tem esses tipos de benefícios e privilégios sociais. As pessoas mais pobres, com certeza, são mais afetadas. Vejamos no caso do Brasil: estudos elaborados pela doutora em economia e professora da USP, Laura Carvalho, publicados no jornal Nexo de 16.04.2020 (“Como a pandemia pode aprofundar novas desigualdades”), dão conta que a ‘comorbidade’ (condição da pessoa que apresenta, ao mesmo tempo, mais de uma doença, e portanto mais suscetível ao agravamento quando contaminada pelo coronavírus, ou outra infecção qualquer) é maior entre os menos escolarizados – 54% para quem frequentou o curso fundamental e 34% para quem frequentou o ensino superior). A falta de uma assistência médica mais adequada e melhor (leitos de UTI no SUS são 5 vezes menos do que na rede privada), a falta de saneamento básico (dados apresentados pelo economista Gesner de Oliveira em palestra organizada pelo Corecon e realizada – via internet – dia 11 pp, mostram que 17% da população brasileira não são atendidas com água, 48% não são atendidas com rede de esgotos e 55% não tem tratamento de água), as péssimas condições de moradia e a falta de empregabilidade mínima e pouco tempo de estudo, entre outras ‘tristezas’, complicam a vida dos pobres ainda mais;

 

  • Ao analisar a história da economia mundial e os impactos das atividades econômicas na sociedade, o professor Miguel Sacramento, constatou uma mudança radical nos principais indicadores macroeconômicos – Geração de Renda, Capacidade de Distribuir a Renda e Investimento por Posto de Trabalho – mostrando que nos séculos XIX e em boa parte do XX, as atividades produtoras de bens físicos – extrativistas, produtoras de matéria prima, commodities agrícolas e minerais, infraestrutura, bens de capital e industriais – foram as que mais contribuíram para o crescimento do PIB mundial. Exigiam pouco investimento por posto de trabalho, baixa escolaridade média e foram as grandes geradoras de emprego e distribuidoras de renda desse tempo. Já no século XXI, com o grande aumento da participação das atividades provedoras de serviços na composição do PIB mundial (comercialização, serviços e, notadamente, informação), o desempenho desses indicadores macroeconômicos mudou drasticamente. Exigindo investimentos consideravelmente menores para gerar postos de trabalho, mas demandando escolaridade média superior, essas atividades provedoras de serviços passaram a ser as principais geradoras de emprego e renda. Dados oficiais mostram que nos EUA, em 1860, 70% dos postos de trabalho estavam na agricultura e atualmente são menos do que 1%, sendo que apenas 16% dos postos de trabalho estão em atividades produtoras de bens físicos. A produção de bens, que em 1860 representava 80% do PIB mundial, atualmente representa menos de 15%, ficando mais de 85% para atividades provedoras de serviços. No Brasil a participação de atividades produtoras de bens no PIB está por volta de 25%. Comentários a respeito estão em dois artigos publicados por mim: “Brasil, ainda o País do Futuro?”, de 07/07/2017 e “A crise brasileira é resultado de erros nossos. Passados e atuais”, de 08.03.2020;

 

  • Respondeu o professor e ex-embaixador do Brasil em Washington, Dr. Rubens Ricúpero, ao ser indagado sobre o significado da carta enviada pela Comissão de Políticas Exteriores ao Congresso Americano: “Ela (‘Ways and Means’) é a mais importante comissão do Congresso americano. Essa carta significa que nenhum acordo com o Brasil será feito enquanto a Câmara tiver maioria democrata”. Não é preciso dizer, portanto, que a falta de trato e de clara definição com respeito às políticas de proteção ao meio-ambiente e à sustentabilidade poderão prejudicar a imagem do Brasil, com impactos imediatos e negativos, no campo geopolítico, comercial e de investimento, com transferência de capitais para outros mercados.

 

  • Monica de Bolle (Estadão de 27.05.20), economista, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University, escreveu o artigo intitulado “Estupidez em cima de estupidez”. Comenta Monica: “Choca a fala do ministro da Educação sobre as instituições democráticas do País. Choca a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que essa – a crise humanitária – é uma espécie de oportunidade para o governo ganhar dinheiro ajudando as grandes empresas. As pequenininhas, afinal, não valem o esforço, segundo Guedes. Com elas, o governo perderia dinheiro. Guedes falou em lucrar com grandes empresas enquanto as pessoas penam para receber o auxílio emergencial, enquanto o governo faz de tudo para dificultar o pagamento. E ele ainda tem o desplante de dizer que não haverá dinheiro para prorrogá-lo. Não se trata de não saber fazer conta. Trata-se de má intenção mesmo. Sem contar que salvar grandes empresas geraria uma imensa distorção no Brasil, já demasiado concentrado;
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